terça-feira, 6 de julho de 2010

Uma pequena história de amor

Na maioria das vezes eu conto histórias minhas aqui. Mas andei meio sumido e minhas histórias não têm sido muito interessantes. Sendo assim, decidi contar uma historinha curtinha, mas que muito me comoveu. Aconteceu aqui na cidadezinha onde moro. Os nomes serão modificados pra manter a privacidade dos envolvidos.
Maria começou o namoro com Antônio e se viu apaixonada. Fazia tudo o que ele queria. Mudou o jeito de se vestir, preparava as melhores comidas, tudo o que estivesse ao seu alcance ela procurava fazer pra cativar o seu amor. Um dia Antônio disse a Maria:
_ Acho tão bonito quando essas meninas sorriem de aparelho!
Maria não teve dúvida. Na semana seguinte ela volta do dentista com o sorriso aberto, prateado, pra quem quisesse ver. Ela mandou colocar um aparelho na dentadura! Antônio adorou, se sentiu especial com sua namorada de sorriso metálico portátil!
Hoje eles não namoram mais. Maria já não usa aparelho, mas ostenta um lindo e brilhante piercing dental pra, quem sabe, conquistar um novo amor!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sobre os mistérios da noite.

A noite pra quem mora na roça é um assunto à parte. Há muitos mistérios e temores por baixo desse véu negro que nos cobre todos os dias. Eu sempre me pelei de medo do escuro. Uma das minhas tarefas era fechar as janelas todos os dias e eu fazia isso com o coração prestes a pular pela boca, tamanho o medo do escuro. Não, nunca me ocorreu ir acendendo a luz dos 12 cômodos da casa enquanto eu fazia isso. Quando fechava a última janela eu voltava correndo até chegar à cozinha são e salvo. Grande parte desse medo eu devo à mãe, que sempre contava suas histórias de assombração com muitos lobisomens, mulas-sem-cabeça, almas e outras criaturas. Ela jura de pés juntos que o Saci em pessoa fumou o cachimbo da vó Maria, sua sogra, enquanto ela cochilava na cozinha. Mas o que eu mais tinha medo mesmo era o tal do lobisomem, que aqui em Minas não é um lobo, mas sim um porco peludo de presas saltadas que percorrem sete arraiais pelas redondezas assaltando galinheiros pra comer as bostas das galinhas. Uma das minhas histórias preferidas, hoje que eu não tenho medo é do dia em que o lobisomem derrubou a parede de sua casa. Era tarde da noite e ela estava com sua cunhada na cozinha de sua casa de pau-a-pique conversando quando se deram conta que já era tarde e fizeram troça de um velho q morava por perto

_Vamos dormir, comadre Dolores. Hoje é dia do Seu Antônio virar lobisomem.

Dito isso, deram umas risadas e foram deitar. Ao acabarem suas rezas e já debaixo das cobertas, ouviram as galinhas alvoroçadas no galinheiro. Ficaram quietas e viram que o barulho se aproximava. Quando menos esperavam, a parede da cozinha veio abaixo. Levantaram e correram até lá para ver e puderam avistar o bicho se afastando. Era um porco peludo e enorme, com a traseira mais alta do que a parte da frente que ia em disparada pela estrada na frente da casa. Sim, era o lobisomem. O Seu Antônio tinha resolvido se vingar da brincadeira das duas, e de quebra faturar umas bostinhas no galinheiro.

A mãe sempre contava essas histórias na hora da gente ir pra cama e eu sempre rezava uma Ave Maria extra, pro caso do Seu Antônio ainda estar vivo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Até onde vai a bondade!


Sempre tivemos muita fruta em casa. O pomar do sítio é grande e tem de tudo um pouco. É pera,jabuticaba, mamão, caqui, goiaba, figo, acerola, banana, mexerica e vários tipos de laranja. Nem que a gente quisesse fava conta de comer tudo. Por conta disso, a mãe nunca ligou de dar as frutas a quem pedisse. Era só pedir, entrar e pegar à vontade. Só que sempre tem gente que se aproveita da bondade alheia. E tinha uma fulana que era dessas. Ela parecia aquele povo caroneiro, que esconde as crianças pra pedir carona, sabe? Ela fazia isso, pedia as frutas pra ela e entrava no pomar com uma tropa. A mãe ficava doida de raiva com a folga da dita cuja, que além de tudo escolhia sempre as frutas maiores, mais bonitas e mais doces.
Um dia, em vez da tal da fulana ir buscar as frutas, mandou só as crianças. A mãe já arquitetou um plano.
_ Vou endireitar ela!- Ela sempre dizia isso quando ia passar um corretivo em alguém.
Ela mandou os filhos da fulana esperarem e nos deu as instruções:
_ Vai lá e cata tudo o que é laranja daquele pé que dá as mais azedas. Pode apanhar todas, não deixa uma!
Como criança de roça é bicho do cão e adora um mal-feito, em 5 minutos enchemos um saco de laranjas q custamos a carregar. Entregamos a encomenda e ficamos ansiosos pra saber o resultado.
Pois bem, passam-se dois dias e voltam as crianças de novo. A mãe foi encucada ver o que queriam. Perguntou e um deles respondeu:
_ A mãe mandou pedir mais laranjas, mas falou q dessa vez é pra senhora mandar das laranjas doces, que aquelas não prestaram nem pra fazer suco!
Ouvimos a resposta dada com muita classe:
_ Manda tua mãe tirar laranja doce na puta que pariu!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Como me despedi de 2009 e comecei 2010

Já quase sem perspecitva alguma para o reveillon, recebo o telefonema de uma pessoa X que conehci aqui em Barbacena. Só falava com o tal por msn e nunca o tinha visto.
_E aí Cara? O que vai fazer no Ano Novo?
_Nada. Tô sem grana e minha viagem miou.
_Quer ir pra Copacabana? Cinquentão, tá faltando um no carro!
_Ida e volta?
_Ida e volta.
_Bóra!
Falei com minha tia,que ia me financiar o restante da viagem e mais 15 contos pra eu comer, que ia viajar com o pessoal do curso q tou fazendo e marquei de conehcer o cara no outro dia, véspera da viagem.
Chego na cidade e encontro o fulano. Regata, bermuda e tênis. Cara de 30 e poucos de longe... Enfim, era alguém que poderia se passar como amigo em uma cidade como o Rio de Janeiro sem me fazer passar vergonha. Conversamos e combinamos a hora de sair no dia 30. Sairíamos às 23 e pouco pra chegar de manhã e conseguir vaga no estacionamento perto da praia.
Me arrumei e fui pra cidade. Encontrei o distinto que parecia ter ficado marinado em algum perfume da Avon (nada contra, acho ótimo). Fomos pro posto de gasolina esperar o carro.
_Olha, o carro não é lá o que você está acostumado não. É meio velhinho.
Essa advertência me fez gelar. Imaginei algo no estilo Flintstones. Antes fosse!
Chega um Chevette vermelho rebaixado, ano 84 segundo o dono. Dentro dele o motorista, carinhosamente apelidado de Sapão, um casalzinho de 20 e poucos e muita tralha. As paredes internas do carro forradas por um treco brilhante que imitava piso de ônibus e um cheiro de mofo quase inebriante. Sapão proferiu suas primerias e animadoras palavras:
_Acha q o chevettinho guenta? Minha irmã falou que ele não passava de Juiz de fora.
Entramos. Estava chovendo pouco e eu dei graças a Deus q o carro não passava de 80km/h.
Como tenho pernas compridas eu fui na frente, do lado do Sapão, como co-piloto. Ele me entregou um papel que parecia ter sido escrito por uma criança de 5 anos com dislexia severa e disse que era o mapa pra cortar os pedágios. Eu teria que decifrar aquilo e achar o caminho. Quem me conhece já sabe a merda que deu. Eu malemal sei ler uma receita escrita de forma correta, quanto mais os escritos de um homem-sapo. Fui colocar o cinto, e percebi q ele funcionaria tão bem quanto uma fita crepe.
Começamos a viagem. Entramos em lugares que nem pareciam habitados, estradas que pareciam q iam acabar ali no meio do nada. Cada quebra-molas parecia a muralha da China que o tal carrinho rebaixado lutava bravamente pra atravessar. Teve momentos que achei que íamos ficar ali enganchados. Cada vez que o assoalho do carro raspava num troço daqueles um arrepio percorria minha espinha do cóccix ao pescoço.Quase uma hora e meia depois voltamos à BR e descobri que havia, mais pra frente, outro atalho desses!
Começou a chover forte. O carro que já não corria, começou a rastejar. Senti algo úmido nos meus pés. Uma goteira que fez com que tivesse que tirar meus tênis, que não secariam até o dia de voltar, me fazendo passar o tempo todo com meu par de havaianas.
Saindo dos atalhos e finalmente rumo à terra prometida, começamos a descer a serra. Quando eu pensei que poderia dormir um pouco, olho pro lado e vejo que o motorista pegou a minha vez, e dormiu antes. Gritei a primeira coisa q me veio à mente, algo como um "Arghauleaaa" e ele abriu os olhos. Fui tentando conversar com ele pra ele não dormir e ele mordeno os beiços com toda a força com o mesmo objetivo.
Mais uma hora e pouco chegamos à praia e logo achamos onde estacionar. Corri pro mar e, mesmo com chuva, agradeci a Iemanjá por estar vivo.
Estava com muito sono, pois não tinha dormido durante toda a viagem, ainda mais com a goteira nos pés. Porém, o casal cismou de trepar o dia todo no chevette, e tive que ficar perambulando pela praia com o tal que me chamou pra viagem. confesso que levei um susto quando o dito cujo colocou a sandália. Unha de torresmo! Eeeeeeeeeeeeeew. Cada vez que olhava praquela unha de torresmo era um engulho!
Não ia rolar passar a noite com o povo. Comprei um cartão e tentei desesperadamente ligar pro Marcel e Pro Silvestre, que achei serem mais difíceis de achar, uma vez que Polly morava por perto. Caixa postal. Todos os números que tentava ligar davam caixa postal. O desespero foi batendo e o cara não queria que eu ligasse pra Ciça nem pra Polly. Acho q ele não queria mulher nenhuma na jogada. Mas a certa hora, já com os pés em brasa e com areia em lugares no meu corpo que eu nem sabia existirem me agarrei ao primeiro orelhão e falei com Ciça, que estava mal e disse pra eu ligar pra Polly, minha santa Salvadora.
Depois de ameaças de ser deixado só em plena Copacabana, sem ter dinheiro pra voltar e com meus últimos trocados no carro, larguei o Unha de Torresmo falando sozinho e fui pra Ipanema. Fui ao encontro dos meus! Tomei um banho, chapei, comi a melhor macarronada de 2009 e fomos rumo à festa cantando Roberto Carlos e Daniela Mercury! A certa hora me perdi de todo mundo, ou me despedi, não me lembro. A caminho do carro, encontrei um soldado alemão. JURO! Manuel Roth, era o nome do gringo, foi ouvindo minhas merdas e me amparando até eu chegar no carro. Não me lembro o que falei, mas me lembro que ele ria muito e que chegamos no carro e fui abrindo a porta e peguei o casalzinho numa posição não muito ortodoxa. E a buça raspadinha dela não era lá muito estética. Eles se assustaram.
_Feliz Ano Novo! (foi o que eu quis dizer, embora possa ter soado um pouco diferente.)
Bem, não precisa descrever a volta, que foi mais ou menos parecida com a ida.
Queria também aproveitar e agradecer a todos os meus amigos, e em especial à Ana Paula Barbi por me dar de presente o melhor reveillon de toda a minha vida. Te amo Polly! Ticurupaco iôiô, somos Muzenza larauê!

domingo, 20 de dezembro de 2009

Sobre as horas difíceis

Hoje o dia amanheceu frio e cinzento aqui em Barbacena. Não muito diferente dos outros dias nessa época do ano, mas hoje estava particularmente frio e cinzento.
Quando acordei, a mãe já estava de pé, se arrumando. Conferiu a bolsa, as roupas, tomou café e se trocou. Sentou em seu lugarzinho na cozinha, leu seu livro de orações e ficou vendo receitas na TV. Eu tentava achar algo pra falar, mas nada me vinha à cabeça. Eu que sou um falastrão,nunca sei o que falar nas horas mais difíceis. Minha tia, pra não demonstrar o nervosismo pela situação, começou a faxinar a casa às seis da manhã e quando terminei de tomar banho já estava tudo pronto.
Chegou a Kombi. Fui com a mãe até o portão, enquanto a tia terminava de se arrumar e dava as últimas recomendações à minha prima. Vim o caminho todo sem falar nada, a não ser por um breve comentário sobre o dia frio. Foi o que consegui. Logo tive que me calar, porque senti um nó vindo à garganta, o mesmo que seguro agora enquanto escrevo.
Cheguei no portão da escola. Hora de descer.
_ Bença, mãe! Vai com Deus!
_ Amém!
Entrei rápido pelo portão e procurei não olhar pra trás enquanto a Kombi ia rumo ao hospital.
Sentei no banco do lado de fora do prédio do curso. Não consegui mais segurar o nó e ele se desatou em lágrimas. Sei que eu não deveria, que deveria ser forte. Mas o medo de perder a pessoa que mais se importa com você e que você mais ama em toda a sua vida é maior que qualquer força, é maior que qualquer discurso... É maior que a vontade de chorar...

sábado, 12 de dezembro de 2009

E eu voltei no curso, revi o meu percurso...



Pois é, quem diria que eu voltaria a morar de novo aqui tão cedo. Sempre imaginei que fosse morrer aqui, mas nunca sequer imaginei estar aqui agora. Tá certo que é algo temporário. Espero que sejam meses, um ano no máximo.
Foi uma decisão difícil, mas tomada em tempo recorde. Em uma semana apareceu a oportunidade de fazer algo diferente na minha vida tendo que, ao mesmo tempo largar tudo o que tinha conquistado nesses quase 14 anos fora. Mas decidi e assim foi feito. Estou bem grandinho pra ter medo de mudanças. Larguei emprego, casa e, o mais difícil de tudo, larguei amigos.
Minha volta não foi nada como a volta de Tieta do Agreste. Não trouxe a luz para a cidade, porque sempre teve. Também não cheguei num carro vermelho com Fafá de Belém cantando Coração do Agreste ao fundo. Mas a cada passo que dava eu podia sentir minhas memórias, boas e más, me invadindo.
Não é a coisa mais agradável do mundo entrar em contato com o passado, ainda mais quando ele traz marcas que ainda são recentes. Mas os fins justificam os meios, e foi pra isso que eu vim, vim com um objetivo, e não há nada que vai me desviar a atenção dele, não agora...




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O nome do cachorro

Tia Fulô se pelava de medo de cachorros e cobras e demais bichos que tendem a a andar soltos. Sempre andava com uma pedra ou um pedaço de pau na mão, caso precisasse apedrejar ou dar uma cacetada em algum agressor inesperado. Mulher franzina, de pernas fracas, não aguentava correr.
Mas quando ela ia por perto, no arraial mesmo, ela andava sem nada. Sempre saía pela vizinhança para o caso de precisar de uma caneca de açúcar ou palha de milho pra enrolar os cigarros.
Um dia foi até a casa de Lena, vizinha de baixo para um desses afazeres, quando lembrou que eles haviam ganhado um filhote de vira-lata que ainda não havia sido batizado. Relutou até lá sem que soubesse o nome do cachorro pra poder ralhar com ele caso ele avançasse, mas se encheu de coragem e foi.
Como é de costume no interior ela foi logo entrando, sem chamar, quando deu de cara com o pequeno vira-latas. Achando que ia passar por ele ilesa, caminhou pela sala quando sentiu a mordida em seu calcanhar magro e gritou:
_Lena! Vem aqui dar um jeito nesse capetinha!
Pronto! Estava batizado o cachorro!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sobre o feriado


Sé'setembro! É mais ou menos assim que falamos lá em Minas. Hoje em dia já não é tão mais tão empolgante. Mas quando criança era comemorado como se fosse festa.As escolasdaq prefeitura davam uniforme novo pras crianças pra sair no desfile na Rua XV de NOvembro, com parada pra hastear a bandeira e cantar o hino.
Mas o que eu mais gostava mesmo era que, nesses dias, passava na frente do sítioo Enduro da Independência. Pra quem nunca ouviu falar, era um evento de motocross que refazia o caminho de Dom Pedro I de Petróppolis a Belo Horizonte.Eram mais de 300 motos que passavem pela estradinha de terra do Sítio Três Morros, onde eu morava. Me lembro que o dia q as motos iam passar eu e meus primos levantávamos cedo, tomávamos banho e ficávamos empoleirados na cerca de tábuas, a contragosto do meu avô que volta e meia nos prometia umas palmadas. QUando a gente ouvia o ronco dos motores se aproximando, começava a gritaria! Era a cosia mais maravilhosa do mundo, pra quem só via o caminhão do leite e o fusquinha da vizinha da frente, ver aquele mundo de motos Honda coloridas e aqueles homens sujos de barro e vestidos com roupas que pareciam de super-herois.
O espetáculo durava pouco mais de 2 minutos. Os motoqueiros buzinavam pra gente, aceleravam e a gente gritava e abanava as mãos, como que os saudando. Sempre tinha também o retardatário, que a gente apontava e ria muito, por estar em último. Quando ele passava, a gente saía correndo atrás da moto dele que nem cachorro vira-lata, como quem quisesse dizer que a pé a gente chegava primeiro.
Porém, como tudo o que é bom dura pouco, resolveram asfaltar a estradinha pra trazer o progresso pra roça e nunca mais eu vi o enduro passar por lá.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Experimentando


Meu avô fumava cigarro de palha, que ele chamava de "continempaia" em alusão ao cigarro "continental" que era popular na época por ser um dos poucos que se econtrava nas vendinhas próximas ao sítio. De manhã ele fazia o ritual de preparação dos cigarros que fumaria durante o dia. Ia até o paiol e procurava uma espiga de milho bem bonita, com a palha grande e lisa. Tirava umas palhas e recortava as pontas com seu canivete de cabo de osso até elas ficarem todas em um formato retangular pra enrolar o cigarro. Depois ia até o quartinho onde guardava o fumo de corda e tirava umas lascas que depois desfiava e punha pra secar na chapa do fogão à lenha, enfurecendo minha avó:
_ Deixa de ser porco, Tião! Tô fazendo o café e tu vem com essa porcaria catinguenta pra cá!
_ Não me amola, mulher! Deixa eu secar meu fumo! Eu, hein?
Depois de ouvir a ladainha e restrucar coisas que eu não decifrava, e nem a minha avó, sob pena de uns respingos de água quente no lombo ele retirava o fumo, sequinho e desfiado. Sentava no alpendre e enrolava uns 5 ou 6 cigarros bem substanciosos que depois ficariam na janela da cozinha. Quando dava vontade de fumar ele passava por lá e pegava um. Sentava embaixo de alguma árvore ou na beira de um barranco e soltava longas baforadas de uma fumaça azul, que saía pelo canto da boca bailando no ar como uma serpente desengonçada.
Um dia, chamei o Nêgo, meu primo e cúmplice, e tive a brilhante idéia de furtar um cigarro. Eu tinha 7 anos e o Nêgo já tinha quase 9. Como o cigarro era grande, achamos melhor dividirmos um só. Pegamos o dito cujo e mais um tição no fogão e corremos para a horta, num lugar onde a fumaça não seria vista e poderíamos fumar à vontade. As primeiras baforadas vieram seguidas de um gosto sêco, e trouxeram uma tosse interminável. Mas não podíamos desistir. Mais uma tentativa e conseguimos dar uma bela tragada e soltamos a fumaça aos poucos, que nem o velho. Mais duas dessas e começamos a ouvir um zumbido. As árvore sao redor começaram a correr em círculos à nossa volta, achamos q era por isso que o vovô fumava sentado. Sentamos também, mas o enjoo não parava o céu foi ficando esquisito, parecia que ia cair e engolir a gente. O café da manhã recusou-se a ficar no estômago.
_ Nêgo- chamei por meu primo. Me dá a mão que eu vou morrer!
Fechei os olhos e acordei umas duas horas depois com a mãe chamando pra almoçar. Levantei com dificuldade e o Nêgo ainda estava ali do lado. Levantamos ainda meio cambaleantes e fomos pra casa. O almoço pareceu pesado demais, não conseguimos comer. Depois fomos pro nosso quarto, discutir a experiência.
_Que coisa esquisita! Tu ainda tá zonzo, Nêgo?
_Eu tô, amanha a gente fuma a outra metade!

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Sobre a dor...

Muito pequeno aprendi o que era a dor... Qualquer coisa que se fizesse em casa era motivo pra apanhar. Já apanhei de cinta, de chinelo, de vara de marmelo, de correia de motor, de cabo de vassoura, de pedaço de pau. O que me doía mais, é que quem fazia isso comigo era a pessoa que eu mais amei, e que amo até hoje. Me lembro que às vezes eu me encolhia no chão enquanto apanhava tentando me proteger das pancadas que vinham como uma chuva de pedras. Um dia resolvi gritar, numa tentativa de intimidar o agressor:
_Desgraçada! Tomara que eu morra e tu vá pra cadeia apodrecer no xilindró!
Apanhei dobrado por praguejar e ainda levei um murro na boca.
Uma vez, depois de ter feito algo errado, o que não era difícil aos olhos dela, eu fugi e me escondi no meio do milharal. Ouvia gritarem meu nome, mas o medo de apanhar era tanto que nem me deixava respirar direito. Começou a anoitecer, esfrioou e eu resolvi voltar pra casa. Apanhei por ter ficado escondido e fui dormir sem jantar. Não por ser proibido de comer, mas por não querer comer a comida feita pela mão que tanto me machucava.
Outra vez eu corri quando vi que ia apanhar e enquanto corria, senti uma pancada forte e não lembro de mais nada. Como ela não podia correr, havia me jogado um pedaço de pau que acertou em minha cabeça e eu desmaiei. Quando acordei, desejei que tivesse morrido pra que aquilo parasse. Mas não parou... Enquanto eu vivi lá, minha vida foi assim... Acho que é por isso que, por mais que eu sinta saudade, eu não consigo ficar por muito tempo naquele lugar que um dia foi o meu lar.