terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

That I would be good even when I am overwhelmed

Sabe a sensação de que você sempre está fazendo algo de errado? Quando nunca ninguém está contente com as coisas que você faz? Eu sei! Eu sinto isso a minha vida toda. Minha vida tem sido uma luta exaustiva pra mostrar para as pessoas o que elas querem ver. Não sei se em algum momento eu me coloquei nessa posição, mas o fato é que a todo momento tem alguém me cobrando algo. Quando eu era criança, o que eu mais ouvia era: "Você tem que ser o melhor da turma!" e eu era o melhor da turma, fazia de tudo pra ter boas notas. Fazia de tudo pra cumprir com minhas obrigações de casa, ainda que eu odiasse ter que trabalhar enquanto o que eu queria era brincar o dia inteiro como os filhos dos vizinhos. Eu tinha que comer tudo e comer na hora. Por incontáveis vezes eu ficava de castigo na mesa da cozinha, comendo por obrigação. Eu não estava com fome, mas tinha que comer tudo o que colocavam no meu prato, ou não poderia me levantar dali. Meu tio, quando bebia, me chamava e me colocava sentado na frente dele e me fazia ficar escutando ele falar a mesma coisa, por horas a fio. Eu não queria ir, mas tinha que ir porque ele era meu tio, mais velho e mandava em mim. Eu não podia desenhar porque era coisa de vagabundo. Eu não podia ler gibis, porque era coisa que não prestava. Eu escondia revistinhas da Turma da Mônica e da Xuxa como adolescentes escondem drogas dos pais. Quando meus esconderijos eram descobertos, eu achava resquícios delas no fogão a lenha e chorava, fazia isso escondido para não apanhar por chorar à toa.
Fui crescendo, mudei de escola e fui colocado em uma escola "boa", contra a minha vontade. Eu odiava aquele lugar. Continuava a cobrança para ser o melhor e eu não queria aquilo pra mim. Comecei a vagabundear, me permitindo tirar notas ruins nas matérias que eu não gostava. Consegui só algumas belas surras, chegando a ter que ir para a escolha com o olho roxo depois de uma delas e inventar uma queda da bicicleta pra justificar aquilo. Quem lê o meu blog já sabe que essa fase durou até eu vir parar em São Paulo.
Achei que em São Paulo, morando com minha mãe, as coisas iam ser diferentes. Mas eu já era quase um adulto. Fui fazer um curso que eu não queria, porque eu tinha que fazer algo que fosse útil e desse dinheiro e acabei novamente impelido a fazer uma série de cagadas na tentativa de fugir daquela situação.
O que vem a ser tudo isso? Por que eu estou com essas coisas na minha cabeça? Porque eu percebi que mesmo sendo cobrado e guiado pelos outros a vida toda, eu nunca tive de fato aquele momento em que eu dissesse um "Ei! Peraí! Não é isso que eu quero!". Apesar de me sentir desconfortável em inúmeras situações, eu tenho medo de desagradar às pessoas. Não sei falar não e quando eu tento fazê-lo, sempre sou persuadido a dizer um sim. Sei que estou sendo fraco e permissivo, mas eu não sei lidar com a frustração alheia. Se um amigo me pede um favor e eu não faço porque eu não quero, eu me sinto ingrato, me sinto mal. Mas poucas vezes eu percebo as pessoas perguntando o que eu quero. Ninguém quer saber o que eu quero fazer, o que eu quero da minha vida. Um exemplo bem simples disso é a escolha do lugar onde comemorar o meu aniversário. Tal lugar é ruim, não gosto de Karaokê, esse lugar é longe, o outro é caro ou é barato demais. Todo mundo tem uma opinião a respeito de algo e eu acho que cabe a mim ser a parte flexível.
Então resolvi a escrever esse post para que vocês, pessoas que convivem comigo, saibam que mesmo quando eu digo sim, às vezes eu quero dizer não. E acho que não precisaria explicar muito essas coisas se vocês prestassem tanta atenção em mim quanto eu presto atenção em vocês. Me ajudem a tirar das costas esse peso de agradar a todo mundo todo o tempo. Eu estou ficando exausto e me tornando uma pessoa reclusa por não achar a minha voz. Me deixem um pouco mais livre pra fazer minhas escolhas, pra gostar das coisas que eu gosto e fazer o que eu quero. Eu estou caminhando para o fim da vida e ainda não me descobri, porque o tempo todo eu penso nas pessoas ao meu redor e me esqueço de parar pra pensar em mim. E quanto mais o tempo passa, mais difícil isso está ficando e eu estou vendo que estou prestes a explodir. Sejam mais gentis comigo, procurem prestar atenção em mim um pouquinho e me ajudem a ser mais feliz porque eu não tenho dinheiro pra pagar terapia. 

sábado, 24 de outubro de 2015

Sobre a Harmônica

Ela tinha seu lugar de destaque no quarto do vô. A harmônica era a única coisa que amolecia o coração do velho.  Ali, em cima do cabideiro, em uma maleta grande e preta, sua Todeschinni de 80 baixos era guardada como uma joia. Ninguém tinha permissão para triscar a mão nela, reinava soberana entra as outras quinquilharias acumuladas nos seus muitos anos de vida.
Seu Sebastião Camilo era um homem negro e rígido como a maleta de sua sanfona. Neto de escravos, sempre trabalhou muito duro pra conquistar tudo o que tinha e dar uma vida melhor para seus filhos, mesmo que o melhor que pudesse fazer estivesse muito aquém do ideal. Trabalhava de sola a sol, de domingo a domingo e só se permitia descansar quando, no domingo à tarde sentava-se no alpendre com a companheira e o Velho Barreiro aos pés do banco. A cada trago, solfejava uma canção. Vida Amargurada de Tião Carreiro e Pardinho era sua favorita. A mãe não gostava muito porque achava que ele cantava pra outra mulher.
Embora ele não falasse muito comigo, eu o admirava. Queria ser forte e conhecido como ele era, queria ser tão sabido e tão esperto quanto ele. Mas o gosto pela música era a única coisa que tínhamos em comum. Eu e o Nêgo sentávamos perto e ficávamos ouvindo aquele cantarolar tímido, quase inaudível enquanto a acordeom o envolvia e tomava conta do terreiro, alcançando a vizinhança com seu maravilhoso firinfonfon. Era um dos únicos momentos em que aquele homem sisudo e de poucas palavras se aproximava da gente. Fazia a gente rir quando já estava bêbado e errava a letra das músicas. Não gostava muito quando a gente ria e dava bronca, mas não parava.
O vô se foi, mas a harmônica está lá. Ninguém nunca aprendeu a tocá-la, então ela fica lá muda. Já não reina mais, porém tem seu prestígio. Espero que a essa altura não tenha esquecido como cantar. Acho que ela ainda espera que ele volte e a leve na vendinha pra tomar um pingão.

terça-feira, 3 de março de 2015

Sobre o Brasil

Hoje na Santa casa

CENA 1

O médico chama:
_ Nicole! Nicole!
Um travesti de vinte e poucos anos vem andando faceiro e entra no consultório.
_ Um absurdo! Estamos aqui esperando desde as onze da manhã pra sermos atendidos e agora chega essa aí que nem doente está e foi chamada em menos de dez minutos? Agora até pra ser atendido no hospital tem que ser gay! Um absurdo!
O marido, um mulato de mais ou menos 1,90 de altura do porte de um leão de chácara, que aguardava atendimento e que parecia mais saudável que um recém-nascido responde:
_ É por isso que o Brasil está desse jeito! Aposto que nem doente ela tá!

CENA 2

Uma médica entra em um dos consultórios e encontra uma amiga que parece que não via faz um tempo. Engatam numa prosa afiadíssima e uma das mulheres que aguardavam atendimento com o filho no colo, com a delicadeza de um paquiderme levanta o peito e esbraveja:
_ Ô mulher, tu não tem mais o que fazer não? Vai ficar aí de conversa atrapalhando o serviço da doutora que tem pra atender a gente? Ah, mas será possível?
A amiga retruca algo incompreensível e fecha a porta do consultório e fica lá uns 10 minutos, saindo pela porta do consultório do lado acompanhada de uma das 3 médicas que estavam atendendo.
_ É por isso que o Brasil está desse jeito! - diz alguém que acompanhava a mãe emputecida.

CENA 3

Depois de cochilar na cadeira por meia hora e acordar num salto, achando que tinha perdido a vez de ser chamado, vejo uma senhora se aproximando. Ela vem e, quando o médico ia chamar a próxima paciente, diz bem baixinho perto dele:
_ Doutor! Olha, eu nem vou passar com o senhor. Eu tenho que ir ao oftalmo, mas eles falaram que só atendem com a guia de encaminhamento daqui. Tem como o senhor me chamar na frente? Não vai me olhar nem nada...
_ Minha senhora, todo mundo que está qui está com dor. Todos estão passando pelo mesmo processo e estão aguardando. se eu fizer isso com a senhora, terei que fazer com todos!
_ Mas nós estamos falando isso em off, só entre eu e você.- olha pra mim- ninguém está ouvindo a nossa conversa e nem vai saber que o senhor me passou na frente.
_ Me diga o seu nome que vou ver o que eu posso fazer.
O médico entra e volta já com a guia de encaminhamento na mão, sem ao menos falar com a mulher e ela pega aquilo como  se estivesse pegando uma nota de cem euros, enfia discretamente no bolso e sai, se sentindo vitoriosa e feliz com sua pequena infração. Uma senhora com o mesmo problema dela, que estava aguardando fazia muito mais tempo que eu, vira pra mim e diz:
_ Está vendo, meu filho? É por ISSO DAÍ que o Brasil  está desse jeito!

CAI O PANO!

domingo, 4 de agosto de 2013

Sobre a vida

À medida que o tempo vai passando, eu sinto o meu maior medo se tornando realidade. Sinto caminhar para o inevitável e encontrar o meu destino, que é terminar sozinho. Ao mesmo tempo eu acho que essa é a minha missão. Eu tenho que aprender a viver sozinho. É como se eu carregasse uma maldição ou uma sina mesmo, sei lá.
Primeiro foi o abandono do meu pai. Não sei nem se ele chegou a ver minha cara ou se um dia me tocou. O fato é que ele não me quis. Depois, eu cresci uma criança basicamente sozinha. Não podia ir brincar na casa dos outros e quase ninguém podia ir à minha casa. Eu era praticamente autista. Me lembro que eu sentava no meio do milharal e conversava com as espigas de milho como se elas fossem pessoas. chegava a ficar horas nesse mundo, cercado de pessoas loiras vestidas de verde que me entendiam e me faziam companhia. Como adolescente, tirando o último ano que eu passei praticamente vivendo em Correia de Almeida, eu habitava praticamente o fundo de qualquer cômodo existente. Era o fundo do quarto, o fundo da sala de aula, até pra andar de ônibus eu me colocava no fundo. Vim para São Paulo e ficava dias sozinho em minha casa, sem ninguém perceber se eu estava lá ou não. Chegava inventar coisas mirabolantes para me distrair e fazer passar o tempo. Quando eu não tinha mais ideias malucas, eu pegava um ônibus e ia rodando a cidade toda escutando música no meu discman, de terminal em terminal só pra ver gente diferente. Lembro de um dia que fui de Santo Amaro à Cidade Tiradentes.
Aí vocês podem dizer que hoje eu tenho amigos, que eles nunca me deixarão sozinhos e tal. Bom, de fato eu tenho amigos maravilhosos, que me acolhem, que me fazem sentir parte de algo maior que a minha pequenez. Mas ainda assim cada um tem a sua vida, sua família, seus momentos. E vai haver o dia, como já aconteceu muitas vezes, que eu vou ter que me trancar no meu quarto e lidar sozinho com os meus demônios.
Ah, mas e o amor? Bom, nesse eu acabo de perder totalmente as esperanças, chego a duvidar da sua existência. Pelo menos pra mim, nunca funcionou. As coisas sempre acabam por motivos justos ou por motivos inexplicáveis, quiçá inventados.
Bom, já que descobrir que minha vida é isso mesmo, queria poder fechar os olhos e adiantar o meu relógio. Queria chegar logo no fim, porque as aulas estão sendo muito sofridas na minha escola da vida! Queria poder passar adiantado...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Sobre o meu sonho

Estava no alto de um morro, de onde se via a praia lotada. Era uma festa, como se fosse a virada do ano.  Lá de cima dava pra ver as luzes todas da festa e o som alto fazia com que a gente dançasse. Embora só estivéssemos nós ali, eu e meus primos Júnior e Marcelo, nós controlávamos toda a festa. Eu animava com um microfone e meu primo colocava a música. Gritei ao microfone "O que vocês querem ouvir?" e a multidão enlouquecida respondeu "Kelly Key"! A cantora entrou e descemos para ir até o pé do morro onde a festa estava acontecendo. Era um caminho sinuoso com árvores em toda a volta. 
Chegando lá embaixo, em vez de ficar já com a multidão que dançava ao som de "Baba Baby", decidimos caminhar pela orla. Nessa hora, as pessoas ricas que passeavam de lancha, davam cavalinhos de pau pra jogar água na gente, como fazem esses filhos da puta de carro no ponto do ônibus em dia de chuva. Havia ali um casal gay que passeava com seu cachorro e observava a gente praguejando enquanto as lanchas nos molhavam. Eu era o mais indignado e dizia palavrões impublicáveis. Decidimos sair dali.
Indo para onde estava acontecendo a festa, achamos um vira-latas pardo, preso a uma corrente e decidimos soltar o bichinho. Júnior, por ser o mais alto e mais forte dos primos o fez. O cachorro sumiu e de repente, nosso tio Paulinho, pai do Marcelo, se aproximou pedindo dinheiro. Ele era um anão e tinha quatro dentes visíveis na boca. Fiquei com dó e o peguei no colo, como se fosse um bebê. Marcelo relutava em dar os 7 reais que tinha para o pai, dizendo que ele usaria o dinheiro para comprar cachaça, mas Júnior, que até no sonho tem o coração de ouro, o convenceu a dar o dinheiro. Nessa hora olhamos para o lado e vimos a entrada da área de alimentação da festa. Havia uma barraquinha vendendo três cachorros-quentes e uma latinha de refrigerante por R$1,99. Meu tio desceu do meu colo e correu para a tal da barraca. Como estava muito barato e eu amo cachorro quente, eu decidi ir até lá com os meninos, mas uma mulher, que estava perto da barraca me puxou pelo  braço. Era minha mãe. Ela não dizia nada, só me olhava. Dei um beijo em seu roso e ela continuou lá, imóvel, seu olhar era de orgulho e de admiração, mas ela não dizia nada, apenas me olhava. Acordei.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Sobre a Bahia

Sempre ouvi dizer que quando você está prestes a morrer, se passa um filme da sua vida diante de seus olhos. Até aí tá tudo sussa, porque como você já vai morrer mesmo, o que vier vai ser fácil de aguentar. O problema é quando esse filme se passa e você não está no seu leito de morte. Acabei de ver um filme que, apesar de ser aparentemente uma história de ficção, me fez lembrar de uma parte da minha vida que eu achei que tinha esquecido. Achei que não ia mais ter que lidar com todas essas lembranças depois de tanto tempo, estando tão longe de tudo o que aconteceu. Achei que eu tinha deixado tudo lá onde pra trás, onde as coisas aconteceram. Os abusos, os dramas, a vontade de que um dia eu acordasse em um lugar diferente e nada daquilo estivesse lá. 
Me lembro que a minha vontade era acordar um dia, roubar todo o dinheiro que tinha em casa e entrar no primeiro ônibus que passasse e fosse para a Bahia, porque tinha na minha cabeça que era a terra da felicidade, onde ninguém sofria e não havia problemas. Ninguém apanhava e ninguém era abusado lá. Era só festa, era música e alegria. Mas estou longe de ir para esse lugar, se é que ele existe. Meu filme me lembrou que a minha história é essa mesma, que tenho que lidar com ela e encontrar esse lugar aqui dentro mesmo, seja onde eu estiver. 
Há muita coisa errada ainda, muita coisa que tenho que tenho que dar um jeito de resolver, de tirar aqui de dentro para que eu possa ter a vida que eu mereço, ou que eu acho que eu mereço. Vou poder sair sem medo e colocar meu bloco e meu sorriso na rua, na Bahia.

domingo, 16 de setembro de 2012

Sobre o ódio


Hoje era pra ser um domingo normal, mas não está sendo. Quem está em São Paulo sabe que está um calor infernal. Eu e Johan levantamos cedo, tomamos café e fomos ao museu de insetos do Instituto Biológico lá na Vila Mariana. A temperatura já devia estar passando da casa dos 30 graus e eram ainda 11 da manhã. Comecei a me sentir mal. Paramos pra almoçar e decidimos ir ao IMAX Bourbon mais tarde. Depois do almoço, fomos direto comprar os ingressos pra garantir bons lugares. Nesse meio tempo parei umas 3 ou 4 vezes em lugares diferentes pra ir ao banheiro e levar o rosto, já me sentindo sem  forças e com sintomas de uma leve desidratação. Compramos os ingressos e fomos para o ponto do ônibus ali na frente do Bourbon mesmo pra pegarmos um ônibus que fosse até a Barra Funda de onde viríamos para casa. 
Ao chegar no ponto, a ponto de desmaiar de calor, me sentei e comecei a ler a programação de cinema para o mês quando ouço uma senhora falar para outra que estava de pé e eu não tinha visto:
_Pode sentar aqui, minha senhora. Esses daí não vão te dar o lugar mesmo. Depois eles exigem respeito.
A outra mulher sentou-se e, por um momento me senti envergonhado por não ter visto que havia outra senhora em pé, mas eu estava passando mal e entretido com a leitura e o Johan nem sequer notou o que estava acontecendo, por não ser daqui não sabe dos costumes. Logo a senhora que tinha acabado de sentar se levantou e entrou no primeiro ônibus, no que a outra disse:
_Vai no primeiro mesmo, né? Tem que ser assim, porque se depender dessa gente...
Eu me levantei porque meu ônibus se aproximava, dei o sinal para o motorista parar e disse para ela:
_A senhora é muito mal educada. Eu não tinha visto que havia mais alguém no ponto, estava lendo. Era só me avisar que eu me levantava e dava o lugar.
No que ela, com toda a classe de uma elefanta rolando ladeira abaixo disse:
_Você é um folgado, fingiu que não estava vendo. Por isso que tem gente que mata essa raça de vocês, bando de viados. Tem mais é que morrer mesmo! Eu adoraria viver em um lugar onde não tivesse que olhar para a cara de gente como vocês, de tanto nojo que sinto!
Fiquei cego de raiva. Fiz sinal para que o motorista continuasse e voltei para o ponto.
_O que foi que a senhora disse?- perguntei. Antes que ela respondesse, me veio uma cena à cabeça. No dia 11 de fevereiro de 2009, quando fiz 30 anos, enquanto meu amigo Israel me carregava bêbado no ombro, me levando para casa. Um cara abaixou o vidro do carro e disse:
_Vai dar a bunda, hein bichinha?
Prontamente eu respondi.
_Que Deus te ouça!
Esse homem deu a volta com o carro, parou e me deu um tapa no meio da fuça. Meu amigo foi me defender e levou um soco. Peguei o celular pra ligar para a polícia e levei outro no pé do ouvido e meu celular se espatifou. Ele voltou pro carro, pegou uma arma e nos ameaçou, disse que era da polícia federal e que da próxima vez poderia ser muito pior.
Essa cena toda voltou na minha cabeça hoje. Vi naquela senhora, aparentemente uma mãe de família e uma mulher digna e de respeito, o policial que me agrediu sem motivos. Respondi a ela em alto e bom som:
_Sinto pena de uma pessoa como a senhora, preconceituosa, suja e desinformada. Por causa de pessoas como você, que milhares de pessoas como eu são agredidas, torturadas e assassinadas todos os dias. Pessoas ignorantes, que não sabem o que um ser humano de valor. Pessoas que arrotam dignidade, mas fedem por dentro. Pessoas que frequentam igrejas e associações e se dizem pessoas de respeito, e saem por aí matando e ferindo com armas e palavras. Eu é que sinto nojo da senhora, uma mulher imunda.
Ao que ela me responde:
_Sou de igreja mesmo, mas não sou de associação nenhuma queridinho. Sou do TRIBUNAL DE JUSTIÇA e lá pessoas como você dão trabalho pra nós. Fazem a gente perder o nosso tempo com viadices. Tem que morrer mesmo e livrar o mundo dessa raça maldita.
Não vou escrever mais o resto da discussão, porque o negócio ficou feio. A ponto da tal mulher me encostar a mão na cara, ameaçando dar um tapa. Coisa que, caso ela fizesse eu revidasse e esquentasse a lata dela com minha mão, eu seria preso como agressor. As pessoas que passavam pela rua me viam assim, seus olhares davam razão a ela. Era uma bicha contra uma senhora de bem que trabalha no tribunal de justiça.
Aí me vem à cabeça que por duas vezes, pessoas que deveriam proteger a população e trabalhar para que eu possa ter meus direitos, me oefenderam e me ameaçaram. E depois, elas contam a sua versão dos fatos com orgulho, se sentindo vitoriosas. Por isso escrevi aqui. Quero que vocês que leram divulguem, para mostrar para as pessoas que ainda existe sim o preconceito, o ódio. E se porventura essa criatura for mãe, parente ou conhecida de um de vocês, meus sentimentos, pois ninguém merece ter na família ou por perto uma pessoa tão horrível e tão sem caráter.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sobre o meu filho


Foi no começo de janeiro deste ano. Era meio tarde, estava conversando com ele no chat do facebook e eis que rolou um papo mais ou menos assim:
_Menino, como você é querido! Vou adotar você!
_Vou falar com minha mãe se posso te chamar de pai!
Foi um susto. Uma coisa que, nos dias de hoje, com tanta gente com maldade na cabeça, não era pra ser levada a sério. Mas ele veio depois e disse pra mim:
_Minha mãe deixou eu te chamar de pai. 
Fiquei com medo de mexer com a cabeça do menino. Sim, porque, apesar dos seus então 13 anos, Geovanni é um menino, uma criança. Mas fui vendo que esse menino ainda possuía algo que não é comum encontrar nos dias de hoje. Ele tinha inocência no olhar, bondade, educação, carinho. Quem o vê junto com a mãe só sabe pensar uma coisa: de onde vem tanto amor? Conversei com ele, com a mãe, Suely, com alguns amigos e decidi levar isso adiante. Não sei porque alguém iria querer um pai como eu, que estou muito longe de ser exemplo pra alguém. Mas vi nos olhos dele a vontade de dividir o amor que ele tinha dentro de si com mais alguém. A mãe, por conhecer o filho me acolheu como se eu fosse, de fato, da família. Assim eu virei pai. Não pago contas, não dou bronca, não ajudo nos deveres da escola. Mas dou todo o meu amor, levo pra passear, faço coisas que eu gostaria que meu pai, que sequer quis me conhecer, fizesse por mim. 
Hoje, não sei mais viver sem esse meu filho, sem essa família que de certa forma me acolheu e me trata como sendo parte dela. Um dia ele vai crescer e tudo isso pode acabar. Quando a gente cresce, o coração da gente meio que vai perdendo o espaço reservado a essas coisas lúdicas. Mas ele sempre vai ser, aqui dentro do meu peito, o meu filho, que me escolheu e gosta de mim como eu sou, que me chama de pai no meio da rua, sem ter vergonha.
Amo muito você, Gê.


segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sobre o tempo


_ Você não sabe pelo que tenho passado. Você não sabe o que tem acontecido na minha vida.Não tenho tempo pra nada.

Não, realmente eu não sei. Não sei porque você não me disse. E olha que eu quis saber. Liguei, chamei pra sair, combinei encontros. Tudo em vão. Sempre havia algo inesperado, um motivo pelo qual você não poderia estar presente. Vou trabalhar amanhã. Vou estar com meus pais. Marquei com outro amigo. Estou cansado demais. Esqueci meu celular no trabalho. 
E o tempo vai passando, as coisas vão acontecendo e cada um vai guardando o que aconteceu para si. Afinal de contas, você é uma pessoa muito ocupada e não tem tempo. 
Eu devo ser um mágico, por ter tempo mesmo quando trabalho o dia todo. Por ter tempo quando estou cansado. Eu consigo até ter tempo quando eu não quero. Tenho tempo de estar com meus amigos, de contar meus problemas e ouvir os deles. Tenho tempo de brigar e fazer as pazes no mesmo dia. E, se não tenho tempo, eu seu reconhecer e assumir publicamente a minha displicência.
Infelizmente, eu não tenho tempo de agradar a todos, porque eu descobri uma coisa nova pra quem eu quero ter tempo agora. Quero ter tempo pra mim. Não, isso não é egoísmo. Porque quando eu passo um tempo com os que eu amo, não importa a merda pela qual eu esteja passando, estou usando esse tempo pra mim. Quando eu passo horas tentando escrever um post meio torto, meio rancoroso, estou usando esse tempo pra tirar de mim as coisas que me fariam mal.Eu faço o meu tempo. 
Eu quero estar com você, eu quero fazer parte de sua vida, eu tenho o tempo que for necessário. Mas é muito dividir o seu tempo com alguém. É mais fácil usá-lo sozinho, não se doar. Seja muito ocupado, Entupa-se de coisas pra fazer no seu tempo. Use-o da melhor forma possível. Só não use mais o meu, porque pra você, o que eu fiz questão de dividir com você não foi o bastante. E quanto mais passa, mais eu descubro o quão é precioso. Então, deixe eu usar o meu tempo da melhor forma, jogando ele fora junto com aqueles que não se importam em passar um tempo comigo.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Sobre o Polaco

Acho que foi em 2009. Ele foi lá em casa com o João e ficou quase todo o tempo sentado no sofá. Minhas tentativas de puxar papo não foram bem sucedidas e assim como veio, foi embora. Passa-se um tempo e eu volto de Minas, depois de uma reviravolta gigante na minha vida. Encontro novamente o moleque de pouco papo em uma festa. Bebi demais e não me lembro o que conversamos. Nos encontramos de novo em outras ocasiões e um dia, no meio da bebedeira, acabou o gelo e alguém tinha que descer pra buscar. Fomos eu e ele juntos. Me lembro de um comentário que foi mais ou  menos assim:
_ Engraçado, mas eu sinto uma coisa boa quando estou perto de você. Meio que uma tranquilidade, uma paz...
_ Eu meio que sinto isso também!
Desde então nos aproximamos e passamos cada vez mais tempo juntos. Era engraçado, porque ele era totalmente o oposto de mim. Tímido demais, fechado, não sabia abraçar e não gostava de demonstrações  de afeto em público.
De repente veio o dia mais difícil da minha vida, quando perdi aquela que era minha mãe, meu ídolo, a pessoa que eu mais amei na minha vida. Eu estava desnorteado, meio anestesiado e não conseguia desabafar, nem chorar e nem nada. Fui com ele pra sua casa, depois de bebermos muito na casa de outro amigo que também estava sendo fundamental nesses dias. Mas foi ao lado dele que eu, não mais que de repente, comecei a chorar. Era um choro compulsivo, como eu nunca havia chorando antes em toda a minha vida, nem quando levava minhas surras na infância. Foi a primeira vez que senti seu abraço de verdade, no começo meio desajeitado, receoso, mas foi se tornando acolhedor, aquecendo minha alma que estava fria e despedaçada pela dor. Ali, naquele momento, eu descobri que eu tinha um amigo que estava do meu lado, que seria fundamental nas horas boas e ruins. Aquele abraço que me tirou a dor, me deu um irmão.
Hoje não sei mais viver sem o Polaco. Alguns o conhecem como André Levinski, mas pra mim vai ser sempre o meu Polaco, meu irmão de alma!