sábado, 24 de outubro de 2015

Sobre a Harmônica

Ela tinha seu lugar de destaque no quarto do vô. A harmônica era a única coisa que amolecia o coração do velho.  Ali, em cima do cabideiro, em uma maleta grande e preta, sua Todeschinni de 80 baixos era guardada como uma joia. Ninguém tinha permissão para triscar a mão nela, reinava soberana entra as outras quinquilharias acumuladas nos seus muitos anos de vida.
Seu Sebastião Camilo era um homem negro e rígido como a maleta de sua sanfona. Neto de escravos, sempre trabalhou muito duro pra conquistar tudo o que tinha e dar uma vida melhor para seus filhos, mesmo que o melhor que pudesse fazer estivesse muito aquém do ideal. Trabalhava de sola a sol, de domingo a domingo e só se permitia descansar quando, no domingo à tarde sentava-se no alpendre com a companheira e o Velho Barreiro aos pés do banco. A cada trago, solfejava uma canção. Vida Amargurada de Tião Carreiro e Pardinho era sua favorita. A mãe não gostava muito porque achava que ele cantava pra outra mulher.
Embora ele não falasse muito comigo, eu o admirava. Queria ser forte e conhecido como ele era, queria ser tão sabido e tão esperto quanto ele. Mas o gosto pela música era a única coisa que tínhamos em comum. Eu e o Nêgo sentávamos perto e ficávamos ouvindo aquele cantarolar tímido, quase inaudível enquanto a acordeom o envolvia e tomava conta do terreiro, alcançando a vizinhança com seu maravilhoso firinfonfon. Era um dos únicos momentos em que aquele homem sisudo e de poucas palavras se aproximava da gente. Fazia a gente rir quando já estava bêbado e errava a letra das músicas. Não gostava muito quando a gente ria e dava bronca, mas não parava.
O vô se foi, mas a harmônica está lá. Ninguém nunca aprendeu a tocá-la, então ela fica lá muda. Já não reina mais, porém tem seu prestígio. Espero que a essa altura não tenha esquecido como cantar. Acho que ela ainda espera que ele volte e a leve na vendinha pra tomar um pingão.

terça-feira, 3 de março de 2015

Sobre o Brasil

Hoje na Santa casa

CENA 1

O médico chama:
_ Nicole! Nicole!
Um travesti de vinte e poucos anos vem andando faceiro e entra no consultório.
_ Um absurdo! Estamos aqui esperando desde as onze da manhã pra sermos atendidos e agora chega essa aí que nem doente está e foi chamada em menos de dez minutos? Agora até pra ser atendido no hospital tem que ser gay! Um absurdo!
O marido, um mulato de mais ou menos 1,90 de altura do porte de um leão de chácara, que aguardava atendimento e que parecia mais saudável que um recém-nascido responde:
_ É por isso que o Brasil está desse jeito! Aposto que nem doente ela tá!

CENA 2

Uma médica entra em um dos consultórios e encontra uma amiga que parece que não via faz um tempo. Engatam numa prosa afiadíssima e uma das mulheres que aguardavam atendimento com o filho no colo, com a delicadeza de um paquiderme levanta o peito e esbraveja:
_ Ô mulher, tu não tem mais o que fazer não? Vai ficar aí de conversa atrapalhando o serviço da doutora que tem pra atender a gente? Ah, mas será possível?
A amiga retruca algo incompreensível e fecha a porta do consultório e fica lá uns 10 minutos, saindo pela porta do consultório do lado acompanhada de uma das 3 médicas que estavam atendendo.
_ É por isso que o Brasil está desse jeito! - diz alguém que acompanhava a mãe emputecida.

CENA 3

Depois de cochilar na cadeira por meia hora e acordar num salto, achando que tinha perdido a vez de ser chamado, vejo uma senhora se aproximando. Ela vem e, quando o médico ia chamar a próxima paciente, diz bem baixinho perto dele:
_ Doutor! Olha, eu nem vou passar com o senhor. Eu tenho que ir ao oftalmo, mas eles falaram que só atendem com a guia de encaminhamento daqui. Tem como o senhor me chamar na frente? Não vai me olhar nem nada...
_ Minha senhora, todo mundo que está qui está com dor. Todos estão passando pelo mesmo processo e estão aguardando. se eu fizer isso com a senhora, terei que fazer com todos!
_ Mas nós estamos falando isso em off, só entre eu e você.- olha pra mim- ninguém está ouvindo a nossa conversa e nem vai saber que o senhor me passou na frente.
_ Me diga o seu nome que vou ver o que eu posso fazer.
O médico entra e volta já com a guia de encaminhamento na mão, sem ao menos falar com a mulher e ela pega aquilo como  se estivesse pegando uma nota de cem euros, enfia discretamente no bolso e sai, se sentindo vitoriosa e feliz com sua pequena infração. Uma senhora com o mesmo problema dela, que estava aguardando fazia muito mais tempo que eu, vira pra mim e diz:
_ Está vendo, meu filho? É por ISSO DAÍ que o Brasil  está desse jeito!

CAI O PANO!