quarta-feira, 16 de março de 2011

Adeus, pequeno Rei

Hoje eu perdi um pouco o chão quando sou be que meu ex-aluno, que devia estar com uns 14 anos, resolveu nos deixar.
O mundo perde hoje um menino inteligentíssimo que era ótimo karateca, que adorava aprender e que achava bonito fazer mágicas. Que gostava de brincar e tinha nos olhos a inocência que hoje em dia é tão rara nas crianças. Não tenho palavras pra descrever o quanto essa criaturinha me marcou. O quanto ele e os outros meninos da sua turminha me marcaram e me fizeram ver que o que eu queria, de verdade, era ser professor.
Obrigado, Arturzinho. Que tenha aprendido na mesma poporção que me ensinou... Que ensine aos anjos o que é ser doce...
Sempre vou ouvir sua risada ao imitar o meu sotaque fajuto, chamando-o de "King Arthur!"

terça-feira, 8 de março de 2011

Através do Universo

Estou aqui agora, no quarto onde passei uma boa parte da minha vida, quase a metade dela pra ser mais exato. Aqui eu tive sonhos e pesadelos, vivi experiências boas e traumáticas. Experimentei o prazer, a dor e a violência. Tudo entre essas quatro paredes que de azuis, na minha infância, agora são amarelas com um ou outro pernilongo esmagado contrastando com a cor que se esvai com o tempo.
Mais uma vez me deito  nesse meu berço, em um período crucial onde se inicia um novo ciclo, uma nova etapa. Tenho a sensação de que precisava estar aqui. Precisava estar nesse meu berço de tantas coisas para que pudesse me lembrar  que, aconteça o que acontecer, é preciso continuar. É preciso seguir em frete, com afinco, fazendo de cada pedra um degrau, cada tropeço um impulso à frente, sem se esquecer que sempre, ladeando a estrada, há os amigos a quem posso recorrer!
Saindo desse quarto, o mundo me espera lá fora. O sol a brilhar no céu azul, tudo muito lindo, assim como eu. Sendo assim, dear Charlie, won’t  you come out to play?
Dear Charlie, greet the brand new Day!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sobre as aparências

Maria de Fátima era diferente das outras meninas da escola. Era feia, era branca do cabelo ruim, era dentuça e tinha costeletas longas que meio que pareciam uma barba. As meninas da escola que andavam comigo riam dela. Era pouco inteligente, chamada de burra pelos colegas de classe e também por algumas professoras. Às vezes, na hora do recreio, risinhos sarcásticos e dedos apontados pra ela a faziam encolher-se e sentar-se num cantinho.  Ao contrário dos outros alunos que usavam a camiseta da escola, ou roupas bonitas nas cores permitidas pela direção, Maria de Fátima usava uma saia que parecia um avental (eu chamava de jardineira) e uma camisa social branca. Apesar de já estarmos no ginásio, esse era o uniforme do grupo, e dava pra notar pelas marcas da bainha refeita e pelas pences abertas nas costas que Maria de Fátima já usava essa roupa fazia anos. Eu não me aproximava dela, apenas a olhava de longe. Me sentia sem-graça quando alguem que estava perto de mim ria da menina feia e às vezes esboçava uma risadinha, mas por dentro meu coração se apertava. Eu sabia quem era Maria de Fátima e parece que ela também sabia quem eu era.
Um dia, a mãe não me deu dinheiro pro lanche. Era bobeira ter que comer na escola,  afinal em quatro horas estaria de volta em casa pra almoçar e um pedaço de bolo bastava, ou uma banana, que eu comia escondido quando levava porque era fruta barata, não era maçã que nem dos outros. Mas nesse dia de fome, nem banana, nem bolo, nem nada. Sentei-me num cantinho do pátio e lá veio ela. Fiquei com medo, pois andava com os meninos e meninas que riam dela, e lembro de ter feito isso uma ou duas vezes. Ela chegou perto e segurava um pão com manteiga embrulhado num pano. Dividiu no meio com as mãos, olhou pra mim e disse:
_Toma, come comigo! Eu sei que você está com fome.
Aceitei e comi, ela sentou-se do meu lado e começamos a conversar. Maria de Fátima tinha uma voz linda e sabia de muitas coisas legais. Ela sorria e seus dentões brilhavam, sorrindo junto! Agradeci e pedi pra ela me esperar na hora de ir embora.
A aula acabou. Saí da sala junto com ela e os outros me olharam esquisito. Mudei o caminho pra conversar mais com ela e pegava o ônibus já cheio, sem lugar pra sentar. Mas aprendi com Maria de Fátima que aparências valem menos que gestos e que a beleza vem junto com a generosidade. Desde então eu  soube que, sendo rico ou pobre, usando roupa boa ou uniforme, comendo banana ou maçã, o que importa é o que você é por dentro. E agradeço a você, Maria de Fátima, por ser essa pessoa linda e por me dar essa lição que carrego até hoje e que agora passo adiante. Há muita gente precisando te conhecer!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Mais sobre os sonhos

Tem gente que não consegue se lembrar de sonhos. Eu não consigo esquecê-los. Já tive de todos os tipos. Tive aqueles em que eu caía do precipício, outros em que eu corria num campo pra abraçar Jesus e es se transformava no cramunhão quando eu pulava no colo dele. Tive sonhos daqueles de acordar fazendo xixi na cama, outros em que estava sem sapatos na escola. Estranho como a maioria desses sonhos que estou citando aqui aconteceram com muita gente. Eu super jurava que eram sonhos só meus e de mais ninguém. Porém sempre que eu os conto, tem alguém que já sonhou algo parecido.
Mas há ainda um outro tipo de sonho que tenho sempre que é muito bizarro e esse, creio eu que não seja tão comum. Às vezes eu sonho que me aconteceu uma coisa muito boa, que eu estava esperando muito. Dia desses eu estava precisando de grana e sonhei que tinha achado 100 reais e escondi o dinheiro debaixo do travesseiro. Quando acordei de manhã, fui todo "cheio de si" pegar a minha mufunfa e cadê? Tinha ficado no sonho, mesmo. Não havia resquício nenhum de que o dinheiro havia estado ali. E esses dias eu sonhei que estava longe de todos os meus problemas e que os amigos que eu mais amo estavam junto comigo o tempo todo. Pra onde quer que eu olhasse, tinha alguém pronto pra me dar um abraço, me dizer uma palavra de afeto... Daí eu acordei, e vi que esse sonho é a mais pura realidade!


P.S.: Dedico esse post a todos os meus amigos, sejam os que estão perto ou os que estão longe, e também às pessoas que sempre passam por aqui e me deixam um recadinho carinhoso. É minha forma de dizer obrigado!

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O Pombo Novo

Sempre me identifiquei com pássaros. Quando pequeno, tinha um pintassilgo lá em casa que a mãe dizia que era meu. Constumava ficar horas sentado perto da gaiola, olhando ele cantar. Como sabem, morei no interior de Minas Gerais até os meus 16 anos e passarinho lá nunca faltou. Chegava a época do verão e eram revoadas de andorinhas, voando rápido e bailando em curas aéreas que faziam eu e meu primo, o Nêgo, corrermos atrás delas como bobos imitando suas curvas pelos pastos, onde eventualmente por estarmos distraídos pisávamos em alguma bosta de vaca. Havia também as maritacas, que a mãe mandava a gente enxotar porque, além de piarem  desesperadamente, elas atacavam o pomar deixando só as capotas das frutas. Eram uma festa de aves pra onde quer que se olhava. Era sabiá, canário da terra, juriti, passo preto... Fora o papagaio brigão de quem eu já falei aqui.
Uma vez, creio que estava na sétima série, eu li um poema que, se não me engano, se chamava "Iniciação". Era um poeminha pequeno, falando de um pombo novo. Era uma coisa simplesm, mas de uma beleza singela que me marcou e eu me lembro dele  até hoje. Não faz muito tempo, o Evandro Breal me ensinou que aquilo era um haicai, que descobri no google ser da curitibana Helena Kolody e acho que dentre todos esses, foi esse pássaro que eu nunca vi que mais me marcou. Eis o tal, que não sei se reproduzi de forma correta, mas era mais ou menos assim:

Iniciação...

Do beiral, o pombo novo 
prescruta o horizonte.
A liberdade assusta o seu dom recente de alar-se.

Helena Kolody



sábado, 25 de dezembro de 2010

Outra história de Natal


Dezembro sempre vem cheio de gentilezas, carinho e amor, que pra mim são comprados na farmácia.  O espírito natalino força as pessoas a fazerem coisas que deveriam fazer também nos outros meses, como serem gentis e tolerantes, por exemplo. Embora eu ame estar com algumas das pessoas da minha família, não gosto de fazer isso no natal quando está todo mundo sendo mais artificial do que as flores que vovó costuma ganhar de presente das vizinhas. Enfim, não gosto de Natal!
Estava eu ano passado, em Minas, quando a família começa a chegar sem avisar na nossa casa e vovó, por se sentir mal, teve que ser internada meio que às pressas.
_Mas internar? Nas vésperas do Natal? - As pessoas falavam isso como se a doença da mãe estivesse estragando a festa de todo mundo. Como se desse pra falar pro câncer: Ó, dá um tempo aí e volta a doer depois do ano novo, porque né?
Enfim. Chega a véspera do Natal, a casa estava lotada, tinha gente dormindo até na cozinha com os cinco quartos e as duas salas já ocupadas. Decidi passar a noite com minha avó no hospital. Não poderia ter feito coisa melhor. Minha avó feliz por eu estar lá com ela, quase não dormiu. Passamos a noite quase toda acordados, lembrando de coisas que aconteceram em nossas vidas e fazendo planos para o futuro. Foi a primeira vez em que eu tive um "Feliz Natal".
Na manhã seguinte, os dois já acordados, mas ainda baqueados pela noite mal dormida, começamos a ouvir um "tchakundun tchakundun" de violão de coral de igreja. Sim, havia um Papai Noel dentro do hospital acompanhado de umas velhinhas cantando hinos natalinos. Eu e minha véia, ao ouvir aquilo começamos a rir, sem parar e quando o coral chegou no nosso quarto, tive que entrar no banheiro pra não passar vergonha. Qando acaba a cantoria, minha avó me diz:
_ Ó que Papai Noel filho da puta! Sabe que eu sou diabética e me enche as mãos de bala. Quer me matar mais depressa?
Não aguentei, explodi na gargalhada. Guardei as balas pra levar pra minha prima e passei o resto da manhã lá, até que minha tia veio me substituir. 
Esse ano não estou com minha família. Mas decidi isso porque queria ficar perto de pessoas que, pra mim, são igualmente importantes. É isso aí! Tenham todos um Feliz Natal!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A Morte

Essa noite eu sonhei que ia morrer de acidente de carro. Era meu destino morrer assim. Acordei pensando no que significava a morte. Quando eu era pequeno eu tinha muito medo de morrer, porque sempre me disseram que eu era uma criança ruim, e que as pessoas ruins iam pro inferno. E se há um lugar onde não quero estar quando eu morrer, este lugar é o inferno. Mas a morte pra mim sempre foi algo muito distante, até o dia em que quis morrer e tomei água com sabão em pó e tomei uma coça por desperdiçar o sabão! 
Depois disso, tive alguns contatos breves com a morte, como do dia que deixei um pintinho cair no tacho de toucinho fritando e tomei outra coça por desperdiçar o toucinho. 
Mas a morte chegou mesmo na minha casa junto com a Tia Iracema. Ela era irmã de minha avó, e se recusava a aceitar que tinha câncer no estômago porque câncer era doença de gente ruim, como se ela houvesse algum dia na vida sido uma pessoa muito boa e merecedora da vida eterna. Porém, a doença foi avançando e, quando ela resolveu se tratar, era tarde demais. Já com uma certa idade, sem filhos, com um marido um tanto quanto inútil e morando no Rio de Janeiro, Tia Iracema foi pra Minas pra morrer onde tinha nascido.
Dois meses depois e vinte quilos a menos, Tia Iracema morreu. Cheguei da escola e, no lugar dos sofás da sala, haviam cadeiras e um caixão imenso com flores amarelas e a tia deitada lá. Suei frio, tremi e passei meio que correndo pela presunta. Daí, me explicaram a morte da maneira mais pedagógica possível:
_Tia Iracema bateu as botas!
Voltei até a sala e olhei de longe pra cara dela. Parecia que estava dormindo e meio que rindo da gente, pois a cara dela tinha um ar de "Vocês vão continuar se fodendo aí e eu tô com minha missão cumprida". Mas outra coisa me chamou a atenção. Uma bolota que surgia entre as flores dentro do caixão. A curiosidade foi maior que o medo e cheguei perto pra ver. Num misto de medo e, admito, um pouquinho de nojo, coloquei a mão naquilo e vi que era o dedão do pé da velha. 
_Mãe! Corre aqui! A Tia Iracema tá sem sapato!- gritei.
Tomei uns tapas pra aprender a ser discreto e aprendi que, além de não gostar de escândalos, a morte também não permitia sapatos!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Sobre os tempos de escola

Eu estudava em uma escola na zona rural de Barbacena, em uma localidade chamada José Luiz. Embora pra muita gente isso pareça uma coisa distante ou mesmo surreal, no tempo em que estudei ainda havia castigo corporal na escola. Aprendíamos entre reguadas, beliscões e puxões de orelha. Me lembro que quando a mãe me colocava na kombi da prefeitura ela falava pra minha professora:
_ Pode descer o cacete, por minha conta!
Eu estudava com o Nêgo, aquele que fumava escondido comigo. A gente tinha pavor de errar. Estudávamos em casa, fazíamos o dever e, quando chegávamos na escola era aquele medo. Será que íamos levar um puxão de orelha ou um cascudo?
O puxão de orelha doía mais na alma do que na orelha, na verdade. Ele nos tirava o direito de errar pra poder aprender. Dependendo da cara da professora ao corrigir nossas tarefas, ou ao perceber um comportamento um pouco inadequado, a gente já se encolhia e esperava o castigo.
Esse fantasma do puxão de orelha ainda me persegue até hoje. Tenho muito medo de errar, ou fazer algo que desagrade a alguém e levar um puxão de orelha. Ainda encontro por aí muitas professoras que preferem dar um puxão de orelha a ensinar o que é certo ou aceitar que você teve dificuldade em assimilar algo. Ainda me encolho, esperando o castigo que virá, de uma forma ou de outra. 
Estou aqui encolhidinho agora, vai doer... Eu sei que vai.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Uma pequena história de amor

Na maioria das vezes eu conto histórias minhas aqui. Mas andei meio sumido e minhas histórias não têm sido muito interessantes. Sendo assim, decidi contar uma historinha curtinha, mas que muito me comoveu. Aconteceu aqui na cidadezinha onde moro. Os nomes serão modificados pra manter a privacidade dos envolvidos.
Maria começou o namoro com Antônio e se viu apaixonada. Fazia tudo o que ele queria. Mudou o jeito de se vestir, preparava as melhores comidas, tudo o que estivesse ao seu alcance ela procurava fazer pra cativar o seu amor. Um dia Antônio disse a Maria:
_ Acho tão bonito quando essas meninas sorriem de aparelho!
Maria não teve dúvida. Na semana seguinte ela volta do dentista com o sorriso aberto, prateado, pra quem quisesse ver. Ela mandou colocar um aparelho na dentadura! Antônio adorou, se sentiu especial com sua namorada de sorriso metálico portátil!
Hoje eles não namoram mais. Maria já não usa aparelho, mas ostenta um lindo e brilhante piercing dental pra, quem sabe, conquistar um novo amor!

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sobre os mistérios da noite.

A noite pra quem mora na roça é um assunto à parte. Há muitos mistérios e temores por baixo desse véu negro que nos cobre todos os dias. Eu sempre me pelei de medo do escuro. Uma das minhas tarefas era fechar as janelas todos os dias e eu fazia isso com o coração prestes a pular pela boca, tamanho o medo do escuro. Não, nunca me ocorreu ir acendendo a luz dos 12 cômodos da casa enquanto eu fazia isso. Quando fechava a última janela eu voltava correndo até chegar à cozinha são e salvo. Grande parte desse medo eu devo à mãe, que sempre contava suas histórias de assombração com muitos lobisomens, mulas-sem-cabeça, almas e outras criaturas. Ela jura de pés juntos que o Saci em pessoa fumou o cachimbo da vó Maria, sua sogra, enquanto ela cochilava na cozinha. Mas o que eu mais tinha medo mesmo era o tal do lobisomem, que aqui em Minas não é um lobo, mas sim um porco peludo de presas saltadas que percorrem sete arraiais pelas redondezas assaltando galinheiros pra comer as bostas das galinhas. Uma das minhas histórias preferidas, hoje que eu não tenho medo é do dia em que o lobisomem derrubou a parede de sua casa. Era tarde da noite e ela estava com sua cunhada na cozinha de sua casa de pau-a-pique conversando quando se deram conta que já era tarde e fizeram troça de um velho q morava por perto

_Vamos dormir, comadre Dolores. Hoje é dia do Seu Antônio virar lobisomem.

Dito isso, deram umas risadas e foram deitar. Ao acabarem suas rezas e já debaixo das cobertas, ouviram as galinhas alvoroçadas no galinheiro. Ficaram quietas e viram que o barulho se aproximava. Quando menos esperavam, a parede da cozinha veio abaixo. Levantaram e correram até lá para ver e puderam avistar o bicho se afastando. Era um porco peludo e enorme, com a traseira mais alta do que a parte da frente que ia em disparada pela estrada na frente da casa. Sim, era o lobisomem. O Seu Antônio tinha resolvido se vingar da brincadeira das duas, e de quebra faturar umas bostinhas no galinheiro.

A mãe sempre contava essas histórias na hora da gente ir pra cama e eu sempre rezava uma Ave Maria extra, pro caso do Seu Antônio ainda estar vivo.