domingo, 12 de outubro de 2008

These are the thoughts

Depois de uma semana tentando organizar meus pensamentos, hoje eu resolvi escrever. Foram dias muito atribulados e importantes, não pelos fatos em si, mas pelo que eles causaram em minha vida.
Na segunda-feira, acabando de sair da primeira aula, recebi a notícia que meu avô tinha falecido. Reagi com tranquilidade por dois motivos. Primeiro que eu sei que ninguém é eterno e meu avô doente com 87 anos não seria o primeiro a sê-lo, ainda mais depois de dois derrames. Segundo, poque meu avô nunca foi uma pessoa presente na minha vida, por N fatores que não cabem ser enumerados, e que ele descanse em paz. Enfim, como família é família e minha avó, que me criou, é também minha mãe, resolvi ir pra Minas pra dar uma força. Sentei ao computador, escrevi meia duzia de e-mails, cancelei três ou quatro aulas e rumei pra Minas com minha mãe (a biológica) e minha tia (que chamo carinhosamente em sua ausência de Estrupício). Viagem chata, com tempo chuvoso, interminável e exaustiva. Depois de mais de 10 horas na estrada por não acharmos ônibus que fosse direto chegamos em casa. Era tarde da noite, a casa aberta e meu avõ, que era negro, parecendo um preto-velho com seu terno branco em um caixão envolto em crisântemos brancos e amarelos. Nunca entendi porque os defuntos têm que ser mergulhados em uma piscina de flores, só com a cabeça, o peito e as mãos pra fora. Parece que o resto do corpo não está ali, acho meio bizarro. Uma noite sem dormir, velando o defunto à moda caipira.
O velório à moda caipira é assim. O morto fica na sala de visitas, com uma carola e umas rezadeiras que de tempos em tempos encomendam a alma com um terço. Os quartos viram local de domínio público, qualquer um que esteja na casa, seja ou não seja da família larga o seu esqueleto onde bem entende e puxa o ronco ali mesmo. Em uma outra sala, ficam os mais sérios, lembrando as aventuras do morto, e dizendo o quanto ele era bom e querido e etc. Nas cozinhas, porque as casas mineiras mais modernas têm uma cozinha a lenha e uma cozinha a gás, fica a parte mais animada, com os mais jovens que falam merda, contam piada, riem e de tempos em tempos recebem ali os mais tristes, incuindo a viúva e parentes mais próximos, para levantar o astral da galera. Nesse local também se encontram os quitutes que são: torradas, bolinho de chuva, broa de milho, bolo de fubá e o famoso pão com mortadela que não pode faltar. Eventualmente toma-se uma lambada de pinga e muito, mas muito café.
No outro dia de manhã, após dormir apenas uma hora, começaram a chegar os outros parentes, inculsive dentre eles uma mulher com uma peruca de cabelo de boneca que, confesso, me causou medo. Gente que nunca víamos, principalmente eu que moro em São Paulo, iam chegando, abraçando e cumprimentando... Enfim... Tava tudo ficando cansativo, quando chegou a hora de fechar o caixão.
Chegou o carro da funerária, que trouxe também um ônibus pra levar geral pro cemitério, e desse carro desce uma mulher com uma capa de lã escura e cabelos escovados à moda boneca que tinha a voz aguda como uma gralha. Era a Ministra de Cristo. A mulher encomendou oficialmente a alma e entoou um cântico que só ela sabia. Todo mundo só canta o "Segura na mão de Deus e vai", mas dessa vez o show foi solo. A gralha cantou, fez uma piadinha que eu não lembro, mas sei que foi de mau-gosto e começaram a tampar o caixão. Nessa hora, minha tia, que mora em Minas, que também é minha madrinha, começou a chorar, como eu nunca havia visto ela fazer e não segurei. Chorei tanto que desisti de ir ao cemitério. Fiquei em casa com a minha avó. Lição número 1, compartilhar a dor alheia faz com que ela seja mais fácil de suportar.
Passei o resto de dia em Minas, e à noite, ainda sem dormir viajei sozinho pra São Paulo, onde cheguei às seis da manhã do outro dia, passei em casa e fui direto pro trabalho.
Chegando em casa, me preparando pra dormir, não resisti e entrei na internet, pois tava morrendo de saudade de umas pessoas, ou seria uma pessoa? Enfim... E encontrei o post abaixo, que foi a outra lição da semana. Não importa o quanto você sofra ou se sinta mal, sempre vai estar por perto uma pessoa que te ama muito, independente do que você faça e de onde ela esteja. E vi que você, Ravel ( sei que você está lendo), é muito mais que um amigo e qualquer outra coisa que possam achar. Não tenho como definir o que você tem representado pra mim nos últimos meses, porque como não havia outro assim antes de você ainda não inventaram a palavra. Obrigado por tudo. Pelas conversas, pelas broncas, pelas palavras de carinho, pelo ombro-amigo via embratel e saiba que não há nada que eu faça, nem dinheiro algum que possa retribuir o que você tem feito por mim. Te amo, magrelo!
É isso que eu queria dizer, Não vou reler porquê tenho certeza q o texto ficou meio desconexo!

4 comentários:

val maria; disse...

desculpa, charlie, mas ri na parte 'que trouxe também um ônibus pra levar geral pro cemitério'.


mas tirando isso, fico feliz que você tenha aprendido duas lições tão bonitas. eu ainda estou no meio do meu caminho, e não sei o que é lição pra guardar, e o que acontece e devemos esquecer.

esse ravel... dá pra esquecer não.

Cláudio disse...

O texto ficou ótimo. Sempre bem escrito. Uma descrição dos costumes de interior digna de Graciliano Ramos. Adorei!

A melhor parte? "que chamo carinhosamente em sua ausência de Estrupício".
HHAHAHAHAHAHAHAHA
Amada titia!

Fabi disse...

Sorry... só agora percebi que não foi vc que escreveu o último texto.
Putz, gostei mais ainda, pela declaração, e agora vejo que realmente é uma pessoa daquelas...
Sinto por seu avô, ou melhor, pelos que ficaram.
Compartilhamos do mesmo pensamento, chega uma hora, que não tem jeito... todo mundo se vai.

Beijas, querido

vicmatos disse...

adourei a "tia da excurção" pro cemitério cantando solo, uahuaauh...

e sobre o Ravel, só tenho a dizer uma coisa:
"aaaaaooowwwnnnnnnn XD"